#85 Ingredientes do mindset
"Feeling scared is not the same thing as being in danger." – Desconhecido
Esta semana a minha filha Rosa foi para a creche toda a manhã, pela primeira vez. É um momento agridoce, mas estamos a focar-nos no doce da questão: 3-4 horas inteiras de trabalho seguidas! Um luxo pelo qual tenho vindo a ansiar.
Nos últimos 3 meses tenho vindo a alimentar uma vontade cada vez maior de voltar ao trabalho a sério. Chega de modo mínimo, que, mesmo com todas as suas regalias, também tem desvantagens (logo em primeiro lugar, a falta de progressão). Quero voltar a ter 6, 7 ou 8 horas por dia para avançar nos meus três projetos profissionais: o serviço como designer, o negócio digital como formadora e a dinamização do CCRVR. São projetos muito diferentes, exigem esforços diferentes.
Mas o tema de hoje é mindset.
Como qualquer millennial português que ganhou alergia a termos como “empreendedorismo” durante os anos da troika, claro que mindset não é das minhas palavras preferidas. É daquelas que, para mim, inevitavelmente cheiram a neoliberalismo. Como traduziriam? Mentalidade não encapsula o significado completo, por isso mindset será.
O mindset tem um ciclo que se reforça a si mesmo: eu tenho o mindset certo > atuo de acordo com isso > os resultados reforçam o mindset. Não necessariamente em contexto de trabalho, pode ser qualquer coisa. Consegues reconhecer o teu, hoje?
Por exemplo: há 2 anos o meu filho Sancho tinha a idade que a Rosa tem agora, mas eu olhava para ele e pensava como seria bom ter outro bebé. Por esta altura, até, já estava grávida outra vez. Ao olhar para trás, consigo ver com muita clareza que o meu estado de espírito e a minha prioridade máxima eram dedicar tempo à minha família.
Fico contente por tê-lo reconhecido, era o que queria e foi o que fiz. Ainda assim, tentei recomeçar projetos e falhei redondamente: uma temporada do podcast abandonada, conteúdo sem seguimento, newsletters esquecidas, fiz bingo dos erros a não cometer.
Agora olho para a Rosa e, meu Deus!, começar do início? Nem pensar! As minhas prioridades são diferentes, o mindset é diferente — admiro a minha versão de há 2 anos e o momento em que estava, mas não me consigo rever nela. Muita água passou sob a ponte, como costumam dizer.
É que o mindset não é uma caixinha mental e estritamente individual, mas um conjunto de ingredientes que, juntos, conseguem criar o nosso “sistema operativo”:
Crenças. Coisas em que acreditamos, algumas mais superficiais, outras mais ocultas, que podem só vir ao de cima escavando um pouco em terapia.
Atitudes. Pré-disposição pessoal para o que esperamos do mundo (mais pessimista ou mais otimista, por exemplo).
Preconceitos. Ideias preconcebidas que fomos interiorizando e que mudam a nossa expectativa do mundo. Por exemplo: entender que todos os artistas são terríveis a matemática modela a expectativa de nunca saber lidar com a contabilidade, se fores artista.
Diálogo interno. A vozinha na nossa cabeça. Penso bastante nisto em relação aos meus filhos, porque li algures, uma vez, que a nossa voz autocrítica nasce do que ouvíamos os adultos à nossa volta dizer repetidamente. Ela é demasiado tímida. Ele não come nada.
Justificação interna. Como é que racionalizas o que corre bem e o que corre mal na tua vida. Quando falhas, achas que é culpa tua ou externa? Que és sempre assim ou que foi só uma vez? Que és má em tudo ou só neste caso específico?
Objetivos e valores. O conjunto daquilo que entendes como mais importante e aquilo que pretendes atingir e que, por isso, em teoria, deve conduzir as tuas ações.
A mensagem de hoje é que há tempos e tempos. Há fases em que estamos mais permeáveis a aprender coisas novas, a experimentar; noutras estamos mais reclusas. Nenhum destes ingredientes é permanente, mas, como alguns se vão mexendo como placas tectónicas, raramente damos por eles até haver um terramoto.
Seja para que tipo de mudança for, acredito que conseguimos intuitivamente senti-lo, mesmo que o mais difícil seja distingui-lo do medo: estou pronta.
Esta semana
Artigo. A different kind of glass ceiling: the glass wall. Sobre a dificuldade das mulheres em considerem side-jobs depois de serem mães. O glass ceiling é um termo popularizado como a barreira invisível à progressão na carreira depois da maternidade, a glass wall é o seu equivalente para carreiras paralelas.
Artigo. Why freelancers find it so difficult to take time off (and how to actually do it). Um conjunto de dicas e sugestões, que abordam de frente o principal problema aqui: o sentimento de culpa.
Livro. $100M Offers. Se são infoprodutores ou vendem algum tipo de serviço ao consumidor, bear with me. Eu sei que criticar o termo mindset e depois recomendar este livro é incoerente, mas olhem, como diria o José Cid, coerente era a minha avó. Aprendi imenso sobre marketing e packaging de serviços. Designers não são marketeers e precisamos de aprender. Encontram versões gratuitas facilmente.
Masterclass sobre Notion a 17/05
Noutras notícias, no dia 17 de maio vou dar uma masterclass incluída na comunidade de trabalho remoto, Achievers’ Club. É uma masterclass sobre Notion, um software que dá para tudo e um par de botas. Neste caso vamos falar sobre criar uma página de CV e criar um sistema muito básico para gestão de projetos/objetivos.
Podem saber mais aqui: https://buymeacoffee.com/ricas/e/533115







